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Prà Vida Real

Blog de Ana Calha. Sobre Diálogo que nos aproxima. Uns dos outros.

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Isto de ser mãe põe fim à dependência da opinião alheia

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Ok, já chega minha gente. Já chega. Já percebi a lição. Agradeço a tudo e todos porque chegou a minha vez de descansar. Sim, porque isto de depender da opinião dos outros desgasta-nos ao ponto de nem sabermos quem somos.

 

Imagino que tenha sem dúvida muito mais pela frente para desbravar mas por agora estou bem tranquila. Ao longo dos meus 44 anos de vida tenho tido vários níveis de intensidade desta dependência dos olhares e ideias dos outros, mas ser mãe finalmente acordou-me alegremente para o que EU penso. O que eu penso não formado por um egocentrismo de me ouvir exclusivamente a mim própria, já que sou pessoa para ouvir muitas opiniões, pedi-las, saborea-las e depois decidir confiar em quem mais me parece fazer sentido. Mas, na altura de ouvir comentários daqueles bem murro no estômago tipo "Ah não, não é assim que se dá de mamar" ou "Ana, a tua filha está cheia de fome, vê-se perfeitamente" e no mesmo dia passadas umas horas ouvir de outra pessoa "ai, acho que ela está a bolsar porque come demais. Eu não faço assim". Ok, chega!!!

 

A vida tem destas delícias. Talvez para cada um de nós o momento de passarmos a confiar na NOSSA forma de viver chegue em alturas diferentes. No meu caso, tem sido um crescendo de tentativa e erro sempre mais consolidado. E agora com o nascimento da Joana há dois meses dei um basta. Sinto-me tão tranquila na mãe que sou. Faço tudo o que posso por ela, a quem tanto desejei. Muitas vezes lhe digo que pode contar comigo. Quero caminhar com ela segura de que vou errar muito. E contar-lhe. Tanto disparate que já fiz só nestes dois meses que nem imagino o que será ao longo da vida. Quando me chegam perto os comentários apavorados de outros, sinto que tocam numa campainha dentro de mim que ainda tem dúvida sobre as minhas capacidades e tento não deixá-la tocar muito alto. Agradeço as sugestões mas tento transmitir aos que estão perto de mim que não quero mesmo nada opiniões que vivem de verdades absolutas.

 

Gostava muito que a minha filha não sofresse como eu sofri na infância e da adolêscência... e, ok, na casa dos 20 e dos 30. Apavorada com o erro. A maneira como espero conseguir isto é lidar bem com os meus. RIrmo-nos sobre eles, falarmos sobre eles. Aprender.

 

Em criança nem sabia o que isso era, opiniões pessoais. Um olhar autoritário deitava-me para o chão. Curiosamente (quase me parece uma contradição) sempre fui decidida e sabia bem o que queria, o que acreditava sobre a vida. Penso que simplesmente ia muito a medo, com receio de não gostarem de mim. Talvez fosse mais isso. Então, cedo decidi "Nunca quero fazer sentir a outra pessoa que não se pode expressar livremente". A minha opinião na altura era

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Na adolescência este receio de me fazer ouvir tomou proporções que só vim a compreender muito mais tarde enquanto contava histórias da minha vida a algumas pessoas. Contei então como no autocarro para a escola costumava tentar segurar a respiração com receio de me ouvirem respirar. Correram-me as lágrimas pelo rosto de ter percebido então o quando não confiava em mim. Mais uma vez, a par disto, batia o pé para estudar aquilo em que acreditava, fazia ouvir as minhas ideias mesmo que a medo. Sempre uma batalha para não me deixar vencer por mim mesma. Curiosa a vida, não? 

 

Nesta batalha, a vida vai vencendo e eu vou ficando mais forte. Recordo-me de estar numa aula de gramática nos EUA durante o meu mestrado para ser professora de inglês e de me perguntarem a minha opinião sobre uma determinada teoria de linguística. Respondi "mas eu acho que todos têm razão no que estão a dizer. Não sei qual é a minha opinião." A professora começou-se a rir e disse-me "És das alunas com mais opiniões que já conheci". O valor deste comentário para o meu crescimento é mesmo difícil de pôr em palavras.

 

Escolhi um percurso de vida de falar em público, de me fazer ouvir. E a solução para o pavor do olhar alheio foi pensar em dar aos outros. Ter claro porque faço o que faço e não obcecar comigo mesma.

 

O ano passado, no meu trabalho como coach de comunicação passei por uma experiência que partilhei na altura no meu blog. http://pravidareal.blogs.sapo.pt/coaching-focado-em-solucoes-licao-no-5252  Neste percurso de vida descobri como ser menos dura comigo, como cair numa rede de apoio bem macia dentro de mim sempre que não sou perfeita como me tentei/tentaram convencer que devia ser.

 

E pronto, chego agora a ser mãe e não é que nesta fase todos desatam a ter opiniões sem qualquer vergonha de as dar como se fossem verdades 100% à prova de bala? Lançam-se uma atrás da outra de todas as direcções. Então digo: já chega! Respirei fundo e escolhi de novo confiar em mim.

 

Até na maternidade, nos quatro dias que lá estive após o nascimento da Joana, em cada turno a enfermeira de serviço dava-me uma opinião diferente da do médico naquele dia ou da enfermeira no turno anterior. Escolhi falar sobre isso e tenho mesmo vindo a perceber que até nestas coisas da ciência nada é absoluto. Ser mãe e cuidar de uma criança depende de tantos factores. Eu escolhi olhar nos olhos da minha filha, ouvi-la a ela, ao pai dela, fazer todas as perguntas que preciso a quem for preciso e depois confiar na forma de viver que escolho para a minha pequena família.

 

O desafio agora é não falar com outros mães sem o cuidado de partilhar com elas que a minha opinião nada mais vale do que a minha experiência pessoal. Se for bom para elas, bom. Senão o coração e espírito de procura delas saberá descobrir o que de mais acertado fazer com os filhos.

 

 

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