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Prà Vida Real

Blog de Ana Calha. Sobre Diálogo que nos aproxima. Uns dos outros.

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Filha da minha mãe. Mãe da minha filha

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Vou ser mãe de uma menina daqui a umas semanas. Tenho pensado muito sobre o futuro, como seria de prever. E mais ainda sobre o passado.

 

Nos últimos três anos na relação com o meu marido tenho dado comigo a repetir alguns dos aspectos negativos da relação que vi os meus pais terem ao longo dos anos. É certo que me conheço bem e que me é mais fácil olhar para o que é negativo do que o positivo. Sem dúvida muito de bom aprendi porque senão não seria a pessoa equlibrada, corajosa e humana que creio ser hoje mas a realidade é que me tenho confrontado com partes de mim que sempre me recusei a vir a ser um dia.

 

Ok, ok, em termos intelectuais e muito racionais e até lógicos lembro de muito cedo na vida ter decidido "Nunca vou repetir isto ou aquilo". Recusava-me veemente ser submissa e ser aquilo que via como desrespeitada. E que choque tem sido, depois de tantas vezes ter debatido estas questões com amigas ao longo dos anos, ver-me igual. Ver-me ser filha da minha mãe. Ou filha de muitas mães e mulheres cujo comportamento fui assimilando.

 

Orgulhosamente filha da minha doce mãe, com um coração de ouro e que mostrou como se comporta uma pessoa compassiva. Filha da minha mãe que me mostrou integridade e verticalidade. E, depois outras coisas que por hábitos de gerações e gerações de mulheres têm vindo a repetir-se e tão mal me sabem na boca e no coração. Nas veias.

 

O que me levou a escrever este texto agora foi porque penso que facilmente nos esquecemos da dificuldade que implica mudar hábitos antigos. Antigos meus, antigos da minha mãe. E antigos de tantas outras mulheres. Leio muitas vezes artigos sobre as coisas que NÃO devemos repetir. Que vamos ser diferentes. Mas pouco sobre a pujança feroz da repetição de comportamentos, irracionais, instintivos e enraizados. Quando me vi em situações das quais não me orgulho muito ao não mostrar a auto-estima que sei que mereço. Porque de facto sei que sou uma mulher a sério e merecedora do maior respeito e fiquei triste comigo. Porque temos ideias do que podemos e queremos ser.

 

O que me importa neste momento não é que a minha filha veja a minha fortitude e perfeição mas que veja a minha revolução de me desafiar a seguir em frente com o que quero. Não quero que ninguém à minha volta se sinta mal por cair. Por serem dominadas por padrões de comportamento antigos.

 

O que tem sido realmente bom é que, em momentos de dúvida, sobre se estamos certas ou erradas, há algo dentro de nós que sabe "isto não é certo PARA MIM". E que, por mais vezes que repitamos maus hábitos que nos magoam e se espalham com tanta facilidade, todos os dias esta voz fica mais forte e acabamos por mudar. Acabamos por ser quem de facto queremos ser. E se insistirmos, mais cedo ou mais tarde, chegamos onde queremos.

 

Talvez me seja difícil pôr em palavras aqui o desafio interno que se manifesta depois em palavras e acções para chegar onde quero nesta questão de transformar o passado num novo presente. Mas vou tentar. Ainda que estes hábitos estejam tão enraizados e talvez me pudessem levar a calar-me e a não refutá-los, a minha voz faz-se ouvir sempre. Verbalizo sempre o que sinto. Mostro a minha indignação. Tenho coragem de ser transparente e de mostrar quem sou. Agora falta-me a consistência de ser mais firme. De levar até ao fim quem sei que realmente sou e criar uma verdadeira transformação. Por mim, pela minha filha e para criar novos ciclos de relações saudáveis e de companheirismo.

 

Estamos a caminho. De um futuro melhor. De um futuro em que não ensino através das palavras ou conselhos, mas através de novos comportamentos. Obrigada mãe pelo caminho que fizeste até aqui. Agora agarro eu.

 

 

 

 

 

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