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Prà Vida Real

Blog de Ana Calha. Sobre Diálogo que nos aproxima. Uns dos outros.

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E se não Correr Tudo Bem?

Vai correr tudo bem.jpgNão me levem a mal. Não me levem mesmo a mal. Mas o que quer realmente dizer "Vai Correr Tudo Bem"?

 

Fiquei grávida pela primeira vez há quase três anos. Depois de duas perdas, estou agora a poucas semanas de conhecer a nossa primeira filha, a Joana. Nestes três anos, na sequência de muitas outras experiências que me ajudaram a aprender a desfrutar tudo na vida - o bom e o mau - continuo a ter muita dificuldade quando oiço dizerem-me "Vai correr tudo bem".

 

Cada vez mais acredito que a vida de modo algum se desenrola assim. Avançamos com uma nova aventura e aparecem-nos percalços. Desta vez foram três anos de contratempos consecutivos, que se mantêm ainda hoje de cada vez que vou a uma consulta na maternidade e surge mais uma dúvida, mais um problema. Hoje, na ida habitual à farmácia para ir buscar medicamentos para os vários obstáculos que surgiram nesta terceira gravidez, a pessoa que me atendeu dizia-me "você tem aqui um quadro clínico complicado. Para além disso, está tudo bem?" Rimo-nos tanto, porque sim, além desta lista gigante de dificuldades na gravidez está tudo bem.

 

O que não quer de todo dizer para mim, HOJE, que vai correr tudo bem. Se calhar a má interpretação é minha. Quando uma mãe que nunca perdeu um filho, que teve uma gravidez sem impasses, que deu de amamentar sem dificuldades, teve um parto simples, ou seja o que for me diz "Vais ver, vai correr tudo bem", não é mesmo nada disto que quero ouvir.

 

A forma como escolhi lidar com este percurso e que tanto me tem ajudado em tudo o resto na minha vida é saber que, corra bem ou mal, eu vou ficar bem. Vou chorar e ficar sem chão como tenho ficado tantas mas tantas vezes nos últimos anos, e ainda assim o meu coração saberá sempre recuperar. Aprender com a situação. Ah sim. Isso sim. Que delícia tem sido. Descobri fortalezas dentro de mim que desconhecia totalmente. Até físicas. Vou poder dizer à minha filha que, a mãe, que tinha medo de toda a dor física, agora lhe pode garantir que também ela terá capacidade de lidar com tudo o que a vida lhe trouxer neste aspecto.  

 

Nichiren Daishonin, o fundador de uma escola budista japonesa, escreveu "Sofra o que tiver que sofrer. Desfrute o que existe para ser desfrutado. Considere tanto o sofrimentos como a alegria como fatos da vida." Como isto é verdade. Não fugir do sofrimento com ilusões permite-nos sempre estar preparados para tudo. Sabendo que no fim vamos sempre ficar bem.

 

Agora... que tudo sempre vai correr bem? Nem pensar. Aqui acredito estar a raíz de tanto sofrimento desnecessário. Não é preciso. Para todas as futuras mães, mães, mulheres, meninas, meninos e homens, caímos as vezes que forem precisas. Mas sabendo que tudo faz parte da vida.

 

Mais uma vez, não me levem a mal. Sei que a intenção é boa.

 

 

 

 

 

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